ARQUIDIOCESE
de Pouso Alegre

De dentista a padre: Aos 88 anos, padre José Carlos continua com sua vida de silêncio e oração - por Pe. Andrey Nicioli



Padre José Carlos é o primeiro, sentado, da direita para a esquerda

Primeiro filho de sete irmãos, José Carlos Cavalcanti Ribeiro desde pequeno descobriu no trabalho da comunidade sua realização. “Desde pequeno eu era coroinha aqui em Santa Rita do Sapucaí, então cuidava das coisas da igreja, ajudando as missas, participando das rezas, naquela época eram terços à noite. Eu era vicentino também”. Fruto do exemplo dos pais, o senhor Amando Sérgio Ribeiro e Maria Lourdes Cavalcanti Ribeiro. 

Mas não deixava de ser e fazer coisas de criança, como algumas “peraltices”. Quando Cônego Carvalhinho soube de que o jovem José Carlos queria ir para o seminário, assustou-se. “Ele dizia que eu era muito turbulento, fazia coisas que não devia. Eu subia na torre e lá de cima ficava jogando grão de café nas pessoas, e às vezes eu era suspenso de coroinha”.

Hoje, com 88 anos de vida, mas próximo de celebrar mais um aniversário (ele nasceu no dia 28 de setembro  de 1930), e 40 anos de vida presbiteral (24/05/1979), padre José Carlos Cavalcanti Ribeiro passa os seus dias na casa de sua irmã, em Santa Rita do Sapucaí, onde cuida de sua saúde. Numa alegria e numa simpatia próprias de alguém realizado e feliz, ele contou um pouco de sua história vocacional, inclusive sua vivência com São João Paulo II. 

Sua entrada no seminário

Nascido em Borda da Mata, foi ainda pequeno para Santa Rita do Sapucaí.  Sua família era muito religiosa, sendo marcante a presença do Cônego Carvalhinho e Dom Octávio junto à sua família. “Cônego Carvalhinho, certa vez, foi conversar com meu pai sobre meu interesse em ir para o seminário. Papai mandou me chamar e perguntou se eu gostaria de ir para o seminário. De imediato eu respondi que queria ir. Papai se assustou um pouco. Ele pediu que fosse falar com minha mãe. Ela começou a chorar”, lembra.

Entrou para o seminário no ano de 1942. Na época, o prédio que acolhia os seminaristas ficava onde, hoje, funciona o Colégio Estadual. O bispo era Dom Octávio Chagas de Miranda. José Carlos ficou no seminário por 4 anos. “Mas um certo tempo eu resolvi repensar as coisas e comigo levei uma turma. Éramos 11 seminaristas. Na época tinha 14 anos. O seminário passo por uma crise financeira muito grande. Chegamos à conclusão de que para ser padre a gente não precisava leva a vida que a gente levava ali”, conta.

Mas sua saída não foi fácil. Ele precisou convencer seu diretor espiritual, padre monsenhor Aristeu Lopes, de quem lembra com muito carinho. “Ele era um grande diretor espiritual. Ele não queria que eu saísse do seminário, de jeito nenhum. Foi com muito custo, conversando com ele, daí ele me autorizou. Eu sempre dizia: eu só saio com sua licença. Eu era muito aberto ao meu diretor espiritual”. 

E sua saída provocou espanto em Dom Octávio e em seu pai. “Comuniquei meu pai, que mandou me buscar. Fiquei sabendo que meu pai chorou muito. Ele sempre ia lá (no seminário), era uma ideia dele ter um filho padre. Soube que meu pai chorou apenas depois do falecimento dele. Dom Octávio ficou sabendo depois, quando os seminaristas do quarto ano não voltaram mais”. 

Sua vida fora do seminário

Voltando para Santa Rita do Sapucaí, precisou escolher o que iria fazer. “Meu pai me deu 15 dias para decidir o que ser na vida. Dentro de 15 dias eu disse que queria trabalhar ele no consultório dele. Meu pai era dentista. Depois


Formado em Odontologia

terminei o ginásio (hoje curso ensino fundamental) e estudei um ano em Pouso Alegre. Depois fui para Belo Horizonte e me formei em Odontologia, tendo também concluído o mestrado e doutorado em Odontologia. Trabalhei na área por muitos anos. Meu ideal era ajuda meu pai, sobretudo na área de odontopediatria. Meu pai não se dava bem com as crianças e eu assumi”, recorda com um sorriso. 

Mas os planos de Deus eram outros para a vida do agora doutor José Carlos. Quando morava na capital mineira, sua vida de Igreja não ficou esquecida, muito pelo contrário, se fortaleceu ainda mais. Lá ele atuava como congregado mariano e vicentino. E por estar no mundo universitário, tinha muito contato com professores e profissionais de outras áreas, principalmente do direito. 

“Estando em Belo Horizonte eu estava junto com dom João Rezende Costa, dom Serafim Fernandes de Araújo e dom Arnaldo Ribeiro. Frequentava o seminário de vez em quando. Dom Arnaldo achava que eu tinha vocação e me perguntava se eu não pensava em ser padre. Sempre fazia o contato entre dom João e profissionais do direito, como promotores. Havia uma missa aos domingos na (igreja Nossa Senhora da) Boa Viagem, às 11h. Como eu estava ligado aos professores de universidade, levávamos os professores nessas missas, sempre celebradas por dom João”, conta. 

Seu retorno para o seminário

E os planos de Deus se confirmaram. José Carlos retorna para o seminário com 46 anos de idade. Mas pouco ficou por lá, já que os estudos de teologia tinham sido feitos ainda enquanto leigo, junto com os irmãos da Congregação do Santíssimo Sacramento que estudavam para ser padres. 

“Por 25 anos participei dos adoradores perpétuos da Boa Viagem. Eles me chamaram para fazer o curso com eles. Dom João sabia disso. Certa vez ele me perguntou se eu nunca tinha pensado em ser padre. Eu disse: ‘eu quero ser padre´”, afirmou. 

E a ordenação foi marcada ali, na agenda de bolso do bispo. 


Ordenação diaconal, em Belo Horizonte

“Então ele pegou a agenda e marcou minha ordenação de imediato. ‘Quer ser ordenado quando?’, perguntou o bispo. Pedi que fosse num dia de Nossa Senhora. ‘Mas quando?’, insistiu. Eu disse 15 de agosto. ‘Está muito longe’, respondeu ele. Marquei para o dia 11 de fevereiro minha ordenação diaconal, dia de Nossa Senhora de Lourdes, e 24 de maio minha ordenação presbiteral, dia de Nossa Senhora Auxiliadora”, se lembra com um sorriso no rosto. 

Sua ordenação ocorreu no colégio Santa Marcelina, em Belo Horizonte. O lema escolhido por ele na sua ordenação foi a passagem do evangelista Lucas (1,46) “Minha alma glorifica o Senhor”. Seu pai já havia falecido, mas toda a família o acompanhou nesta decisão com muita alegria. Depois de ordenado, passou algumas semanas no Brasil, mas logo depois já embarcou para Roma para iniciar seus estudos em espiritualidade, no colégio Teresiano. 

Sua convivência com João Paulo II

Em Roma ele passou a residir no Colégio Pio Brasileiro. Lá também morava dom Lucas Moreira Neves, de quem ficou muito amigo. Dom Lucas trabalhava com Karol Woityla no Vaticano. Eleito papa, João Paulo II o convidou (dom Lucas) para trabalhar na secretaria da Congregação para os Bispos. 

“Toda noite dom Lucas e eu saíamos para rezar o terço na praça de São Pedro. Ele me convidou para trabalhar no Vaticano, na Congregação para os Bispos. Eu tinha um carro lá. Eu viajava com dom Lucas para todo lado. Dom Lucas nunca usou o carro do Vaticano, sempre usava o meu. Ele me dava os tickets de gasolina lá do Vaticano. No dia que vim embora entreguei um envelope para ele com todos os tickets que ele tinha me repassado. Falei: ‘Ninguém pôs gasolina no meu carro a não ser eu mesmo’”, ri. 

E com o papa, o contato era praticamente toda sexta-feira. 

“Seis horas da tarde o papa João Paulo II ia lá na Congregação para os Bispos. Ele ia conversar com dom Lucas assuntos particulares e eu ficava numa anti-sala conversando sempre com seu secretário. Ele me contava muita coisa, inclusive coisas muito engraçadas do João Paulo II”, lembrou, mas que ficarão guardadas com ele. 

João Paulo II era uma pessoa agradável e simples, segundo padre José Carlos. 

“O que mais me marcou foi a santidade, a devoção a Nossa Senhora e também a facilidade que ele tinha de conversar com os jovens. Isso desde aquele tempo. Em todo lugar ele era admirado. O gesto de beijar o chão em cada país que chegava, queria dizer que ele estava homenageando as pessoas que nasceram naquela terra e que gostaria que que aquelas pessoas que ali moravam fossem tão cristãs como ele sempre foi”, falou. 


Em um de seus momentos com João Paulo II

Com muita admiração e saudade continuou: “Conviver com um papa é muito bom. Ele abraçava, perguntava da faculdade onde eu estava estudando, tinha interesse pelas coisas da gente. A tese dele foi sobre São João da Cruz e por isso frequentou um pouco o Colégio Teresiano. Por isso ficou muito ligado lá e sempre me perguntava sobre o Colégio onde eu estudava. Tinha convivência com o papa fora do trabalho também. Muitas vezes dom Lucas e eu íamos almoçar com ele no Palácio Apostólico”.

Foram quase dois anos em Roma, de muito estudo e muito trabalho. Mas era preciso retornar às terras tupiniquins. 

“Poderia ter ficado lá, mas não quis. Primeiro, porque tinha compromisso com a Faculdade em Belo Horizonte. Segundo, porque dom Lucas estava preparando para me fazer bispo, principalmente pelo serviço que eu fazia lá na Congregação para os bispos, mas nunca aceitei. Toda vez que dom Lucas ia à Belo Horizonte, sempre ia no Palácio de dom João Rezende. Ele sempre me perguntava se eu já tinha resolvido aceitar ser bispo, mas sempre neguei”, confessou.  

Seu retorno

Em 1980 padre José Carlo volta para a capital mineira. Chegou como formador para o seminário, mas ficou por lá pouco tempo. Depois foi designado para vigário paroquial da Paróquia da Pampulha. O que nunca lhe tiraram foram as aulas da Universidade Federal de Minas Gerais. 

Após sua aposentadoria, por volta do ano de 1997, ele retorna para Pouso Alegre, onde passa a viver a vida monástica, numa Ermida construída por ele. 

“Dom João Bergese não queria que eu morasse na Ermida, mas depois ele se convenceu de que o silêncio era necessário. Ele queria que eu morasse com ele no Palácio. Mas ele se convenceu. Tanto que ele levava os padres toda última sexta-feira de cada mês para passar o dia na Ermida, onde passávamos o dia rezando. Começávamos o dia com a Lectio Divina e durante o dia rezávamos os evangelhos dos próximos finais de semana, ajudando os padres a preparar suas homilias. Dom João Bergese incentivava os padres a passarem o dia lá”, revela.

Sobre o silêncio num mundo tão “barulhento”, padre José Carlos é enfático: “O silenciar-se é ouvir Deus. Me retiro várias horas por dia para rezar”. 

E finaliza com uma mensagem: “Ser padre vale a pena. Hoje vejo os padres mais preparados, sobretudo na espiritualidade. Melhorou muito. Vale a pena ser padre. E muito mais, a gente ser escolhido para ser padre. Vale a pena. Mesmo aqui continuo com minha vida de orações e missas”. 

 



 

Publicado no dia 04/09/2019